É difícil pra mim acreditar que tanta gente não esteja enxergando isso.
Às vezes, passo horas trabalhando com IA, tentando fazer um agente executar alguma coisa, entendendo onde ele falha, ajustando o que precisa ser ajustado. Aí saio da minha caverna e escuto alguém falando sobre o futuro com uma tranquilidade que me parece absurda.
Uma profissão que pretende seguir.
Uma equipe que pretende contratar.
Um produto que vai levar 1 ano para lançar.
E eu fico pensando: você está contando que tudo continue parecido com hoje por quanto tempo?
Porque eu já não consigo contar com isso.
A sensação é de que apareceu um meteoro no céu, mas só eu e algumas centenas de nerds e empreendedores estamos olhando pra cima. Enquanto isso, o resto do mundo continua vivendo normalmente, como se nada estivesse acontecendo.
Sei como isso se parece.
Todo cara obcecado por uma tecnologia acha que descobriu alguma coisa que os outros não entenderam.
Eu também desconfio desse personagem.
Mas este não é o caso.
Dai eu volto pra minha caverna e vejo que o que eu estava fazendo horas atrás já não é mais necessário. Porque a Anthropic ou a OpenAI lançou um modelo novo que torna aquilo inútil.
O incômodo vem daí.
Eu não estou apenas lendo previsões sobre o que a IA poderá fazer.
Estou vendo ela fazendo em minutos o que antes era um projeto inteiro em uma empresa que envolvia dezenas de pessoas.
Às vezes ela falha, sim.
Às vezes exige supervisão…
Mas, quando funciona,
eu preciso rever o que achava que aquela tarefa custava.
E depois disso é difícil voltar a fazer planos com os números antigos.
Quem está começando agora
Uma das coisas que mais me pega é pensar em quem está começando a vida profissional.
Um jovem entra hoje numa faculdade de cinco anos.
CINCO ANOS
A família comemora.
Ele organiza a vida em torno daquele caminho.
Existe uma promessa implícita ali:
aprenda isso,
passe por essas etapas e
no final,
haverá um lugar
esperando por você.
Eu olho pra essa promessa e fico desconfortável.
Meu problema não é com estudar.
Pelo contrário: aprender a pensar, investigar e entender profundamente um assunto me parece uma preparação muito melhor do que decorar o funcionamento de uma ferramenta.
O que me incomoda é tratar a profissão como um pacote fechado, esperando intacto no final do curso.
Talvez a parte que o aluno está passando anos aprendendo a executar seja justamente a que deixe de justificar uma contratação.
Não sei quais profissões vão passar por isso, nem em qual prazo.
Mas essa dúvida deveria estar dentro da conversa desde o primeiro dia.
Não aparecer como uma surpresa na formatura.
Empresas que nunca questionaram o processo
Dai eu entro dentro de uma empresa tradicional, e meu desconforto aumenta.
Por que alguém precisa copiar esses dados?
Porque tem uma pessoa só pra criar planilhas? E outra só para analisar as planilhas?
Por que essa informação passa por três pessoas?
Por que o cliente precisa esperar até amanhã por uma resposta que depende de uma consulta simples?
Eu juro por Deus que se eu entrar em qualquer empresa que o dono tenha mais de 40 anos aqui na minha cidade eu consigo exterminar 80% dos empregos dali.
Entenda. Não há nada que você faça de frente a um computador que não possa ser completamente feito por um agente de IA hoje em dia. Não importa quantos anos de experiência você tenha.
Quando eu pergunto pro dono da empresa sobre planos para expandir o negócio ele já começa a pensar em QUEM pode executar os novos trabalhos, QUEM ele vai ter que contratar para executar, QUEM vai ter que contratar para gerenciar
A empresa está sempre ocupada escolhendo QUEM vai executar o processo.
Ninguém parou para questionar o PROCESSO.
E eu começo a ter certeza de que estou vivendo outra realidade.
Talvez uma parte desse desencontro venha do lugar onde cada pessoa conheceu a IA.
Quem usa para tirar uma dúvida, melhorar uma mensagem ou fazer um vídeo engraçado está vendo uma experiência muito diferente da minha.
É compreensível que pense nela como um aplicativo útil, às vezes impressionante, às vezes bobo.
Eu também acharia exagero alguém falar em transformação do trabalho se a minha principal referência fosse um chatbot que inventa respostas.
Mas, quando começo a conectar aquilo a arquivos, ferramentas e etapas de uma operação, minha pergunta muda.
Eu deixo de avaliar só a resposta na tela e começo a reconsiderar como o trabalho inteiro foi organizado.
Por isso às vezes parece que estamos discutindo coisas diferentes usando a mesma palavra.
Uma pessoa está me mostrando um vídeo engraçado.
Eu estou tentando entender o que ainda faz sentido contratar na minha empresa.
Planos com premissas frágeis
E então alguém abre uma apresentação com um plano detalhado para os próximos dois anos.
Eu entendo a necessidade.
Também tenho contas, compromissos e decisões que não podem ficar suspensos até o futuro se esclarecer.
Uma empresa não funciona à base de espanto.
Mas me chama atenção a segurança das premissas.
A quantidade de pessoas necessárias.
O preço que o cliente vai aceitar pagar. O prazo de desenvolvimento. A dificuldade que um concorrente teria para oferecer algo parecido.
É nessas partes que eu começo a fazer perguntas.
Porque consigo me imaginar construindo uma empresa perfeitamente organizada para uma condição que deixou de existir no meio do caminho.
Esse medo é bem mais concreto pra mim do que qualquer discussão sobre uma inteligência artificial distante. É gastar os próximos dezoito meses resolvendo, com muito esforço, um problema cujo valor caiu enquanto eu estava ocupado.
E eu não estou assistindo a isso de fora, esperando que aconteça com os outros.
Pode acontecer com o que eu vendo. Com o que sei fazer. Com a estrutura que estou montando agora, convencido de que estou à frente.
Essa é a parte que tira qualquer conforto da posição de quem “entendeu antes”.
Eu posso estar superestimando a velocidade de algumas mudanças. Trabalhar com IA todos os dias também cria uma bolha. O que ocupa a minha cabeça não ocupa a cabeça de quem está tentando fechar o caixa, passar numa prova ou chegar em casa depois do trabalho.
Tenho tentado lembrar disso antes de confundir falta de exposição com falta de inteligência.
Mesmo assim, não consigo tratar essa transformação como um assunto que dá para deixar para depois.
Ela já entrou nas perguntas que faço antes de gastar dinheiro, começar um projeto ou decidir o que aprender. Não me deu clareza sobre o futuro. Tirou a segurança que eu tinha em algumas respostas.
Continuo fazendo planos. Só fiquei muito mais desconfiado daqueles que parecem bons demais porque presumem que pouca coisa vai mudar.
A pergunta incômoda
Hoje, antes de me comprometer com um caminho, tento fazer uma pergunta incômoda:
Qual parte deste plano só funciona se o mundo continuar parecido com hoje?
É aí que eu paro por mais tempo.
Porque o que me assusta não é precisar aprender tudo de novo.
É passar cinco anos me preparando, com disciplina e dedicação, para um trabalho que eu deveria ter começado a repensar agora.