Eu tenho um vício antigo.
Não é substância. Não é destino. É uma sensação.
Aquele momento em que uma ideia nova chega, o cérebro acende, e tudo parece fazer sentido. O plano é perfeito. A energia é total. Eu sinto que finalmente entendi algo que sempre esteve na minha frente.
Aí eu digo: agora vai.
E a sensação é boa demais.
Boa demais de um jeito que deveria me preocupar mais do que me preocupa.
Porque "agora vai" não é clareza. É dopamina. É a química do início. A mesma droga barata que me fez trocar de projeto dezenas de vezes, sempre com a mesma certeza, sempre com o mesmo resultado.
Duas semanas de fogo. Depois cinza.
E eu lá, procurando outra fogueira.
Sempre fui assim.
No Kart eu desacelerava ou batia de propósito.
Perdia posição só pra ter que reconquistar.
Não era estratégia. Era um impulso.
Eu queria sentir de novo a briga, a ultrapassagem, a subida.
O gosto de chegar na frente.
Não foi uma vez. Foram várias. Um padrão que eu só percebi anos depois, olhando pra trás.
Eu achava que era competitivo.
Não era. Eu era viciado na sensação de progresso. Na falsa sensação de que estou avançando, subindo, crescendo. Mesmo que fosse um círculo disfarçado de linha reta.
Nos relacionamentos foi igual. Toda vez que a relação estabilizava, quando o amor deixava de ser montanha-russa e virava plano, eu sentia falta do início. Daquele frio. Da incerteza. Da versão melhor de mim que o começo sempre tirava. Então eu criava problema.
Na carreira então... Cada novo projeto era uma lua de mel.
Primeiro mês: eu era o cara mais motivado.
Terceiro mês: já tava olhando pro lado.
Seis Meses: imaginando a saída.
Não porque o trabalho fosse ruim.
Porque a novidade tinha acabado.
E sem novidade, meu cérebro não sabia se ainda estava vivo.
Comprei cursos que nunca terminei.
Comecei livros que larguei no capítulo três. Assinei academia, fui uma semana, cansei, recomecei de novo 200x
Baixei app de meditação, meditei três dias, deletei.
Cada começo tem a mesma estrutura: dopamina, energia, plano perfeito, duas semanas de fogo, cinza, e uma coceira insuportável pra jogar tudo fora e começar de novo.
Eu confundo movimento com progresso. Intensidade com direção. Começar com construir.
Começar é fácil.
Começar é sedutor.
Começar é viciante.
Continuar é o que separa quem constrói de quem sonha.
E claro... com TDAH, isso não é metáfora. É fisiologia.
Meu cérebro não processa recompensa como uma pessoa normal.
Coisas que deveriam gerar satisfação na execução, na repetição, no lento e invisível progresso diário, simplesmente não registram.
O que registra é o novo. O brilhante. O início. O estímulo fresco.
Então eu mordo. Toda vez.
Como um cachorro que corre atrás de toda bola sem nunca trazer nenhuma de volta.
Eu não escolhi ter o cérebro assim. Mas eu posso escolher o que faço com ele. E essa é a parte que dói.
Porque saber que meu cérebro me trai não serve de desculpa. Serve de mapa. Se eu sei que o inimigo é a coceira do novo, eu não preciso de mais motivação. Preciso de cercado. Preciso de estrutura. Preciso de regras que me impeçam de abandonar o que ainda não acabou só porque apareceu algo mais brilhante.
Eu luto com isso todo dia.
Alguns dias eu perco. Abro três coisas novas. Tenho quatro ideias simultâneas. Me sinto o proprio Steve Jobs por duas horas.
Depois olho pra mesa e vejo que nada foi terminado. Nada. Só entusiasmo espalhado.
Outros dias eu ganho. Ponho a cabeça no mesmo projeto. Faço a parte chata. A parte invisível. A parte que não rende post, não rende screenshot, não rende história bonita pra contar.
Só rende resultado.
E resultado, diferente de entusiasmo, é a única coisa que permanece depois que a dopamina desce.
A falsa sensação de progresso é o crime mais elegante que meu cérebro comete contra mim.
Porque parece real. Parece que eu estou avançando. Afinal, estou fazendo coisas. Estou ocupado. Estudo, planejo, organizo, começo.
Mas fazer coisas não é construir coisas.
E eu já passei metade da vida confundindo as duas.
Hoje eu sei. Quando a coceira vier, quando a ideia nova bater, quando o "agora vai" gritar mais alto que o "continua", eu preciso parar.
Respirar.
E perguntar: eu quero começar isso porque é importante, ou porque terminar o que estou fazendo está difícil?
Nove vezes em dez, a resposta é a segunda.
E nessas nove vezes, a coisa mais corajosa que posso fazer não é recomeçar.
É ficar.