Filho,
talvez você herde de mim essa coisa
Essa fome.
Essa incapacidade de ficar parado sem sentir que está morrendo por dentro. Essa cabeça que não desliga. Essa necessidade doentia de vencer alguma coisa, alguém, o passado, o futuro, Deus, o extrato bancário, o espelho.
Não sei de onde veio isso.
Talvez venha de antes de mim. Talvez eu tenha inventado para não me sentir pequeno. Talvez seja só medo com roupa de ambição.
Mas eu conheço bem.
Conheço a sensação de estar deitado e não descansar. Conheço o corpo cansado e a cabeça fazendo reunião com demônios às três da manhã. Conheço a euforia ridícula de achar que agora vai, agora eu entendi, agora eu vou virar a chave, agora o mundo vai pagar o que me deve.
E conheço o dia seguinte.
O gosto de ressaca sem bebida.
A vergonha.
A cabeça pesada.
A vontade de sumir sem morrer.
Tem uma parte de mim que sempre acreditou que eu precisava ser excepcional para merecer amor. Ou respeito. Ou paz. Sei lá. Talvez tudo junto. Talvez eu tenha passado anos tentando construir um homem tão grande que ninguém conseguisse enxergar o menino assustado por baixo.
Funcionou algumas vezes.
De fora, pelo menos.
Por dentro, nem sempre.
Por dentro foi muita obra abandonada. Muito projeto começado como se fosse salvação. Muito plano escrito com a mão tremendo de ansiedade e chamado de estratégia. Muita promessa feita para mim mesmo no escuro. Muito “amanhã eu conserto”. Muito “depois que der certo eu descanso”. Muito “só preciso aguentar mais um pouco”.
Esse “mais um pouco” é uma mentira perigosa, filho.
Ele vira anos.
Você vai empurrando o corpo.
Empurrando o cérebro.
Empurrando o sono.
Empurrando a tristeza.
Empurrando as pessoas.
Empurrando a própria alma para debaixo do tapete como se ela fosse esperar quietinha.
Ela não espera.
Uma hora ela volta.
E volta com ódio.
Não volta escrevendo carta, não. Volta no peito. No estômago. Na pressão da cabeça. Na falta de ar. No tesão morto. Na raiva de manhã. Na apatia à tarde. Na sensação nojenta de olhar para uma coisa boa e não conseguir sentir nada.
Essa é uma das piores partes.
Quando você consegue algo que queria e só pensa: era isso?
Aí você entende que talvez o problema nunca tenha sido a meta. Talvez fosse o buraco.
E buraco, Augusto, não se preenche com troféu.
Eu queria dizer que descobri isso cedo.
Não descobri.
Ainda estou descobrindo. Do jeito mais burro possível, que é sangrando nas mesmas paredes e fingindo que agora a arquitetura mudou.
Eu me perdi.
Essa é a frase.
Sem enfeite.
Me perdi no meio da ambição. Me perdi tentando provar que eu era mais do que minha história, mais do que meu salário, mais do que minhas perdas, mais do que os lugares onde me senti humilhado. Me perdi tentando virar alguém que eu mesmo respeitasse.
E talvez esse seja o inferno particular dos homens vaidosos e feridos: a gente não quer só vencer. A gente quer que a vitória absolva a gente.
Mas ela não absolve.
Dinheiro nenhum absolve.
Admiração nenhuma absolve.
Mulher nenhuma absolve.
Filho nenhum absolve.
E é por isso que eu nunca vou colocar em você essa responsabilidade. Você não nasceu para me salvar. Não nasceu para dar sentido à minha vida. Não nasceu para ser remédio de adulto quebrado.
Você nasceu meu filho.
Só isso já é enorme.
O resto é problema meu.
Mas sua existência mudou a natureza da minha queda.
Antes de você, quando eu me destruía, eu ainda conseguia romantizar. Eu podia chamar de intensidade, fase, processo, genialidade, crise criativa, qualquer nome bonito que homem usa quando quer continuar sendo idiota sem perder a pose.
Depois de você, ficou mais difícil mentir.
Porque agora, quando eu caio, tem eco.
Tem você.
Tem seu nome.
Tem seu rosto.
Tem a possibilidade brutal de um dia você olhar para mim e enxergar não um pai, mas um aviso.
Eu tenho medo disso.
Medo de que você cresça e herde minha pressa. Minha cabeça barulhenta. Meu amor pelo abismo. Essa tendência ridícula de achar que se não estiver doendo não está funcionando. Essa fé torta de que desequilíbrio é sinal de destino.
E aqui vem a parte ruim: às vezes é.
Às vezes o desequilíbrio leva o homem mais longe do que a paz levaria.
Eu não vou mentir para você com moral de gente calma. Gente calma demais raramente constrói alguma coisa que preste. Existe uma loucura útil. Existe uma obsessão que abre porta. Existe uma raiva que tira o sujeito da lama. Existe uma fome que salva.
Eu sei.
Foi essa fome que me manteve de pé em dias em que eu não tinha nada além de vergonha e boleto.
Foi ela que me fez olhar para uma vida morna e pensar: nem fodendo.
Foi ela que me fez querer mais.
Muito mais.
Mais dinheiro. Mais liberdade. Mais nome. Mais respeito. Mais mundo. Mais tudo.
O problema é que a fome não sabe a hora de parar.
Você dá um prato e ela pede a mesa.
Dá a mesa e ela pede a casa.
Dá a casa e ela pergunta por que ainda existe um vazio dentro do peito.
A fome é uma criança abandonada com uma faca na mão.
Se você não educa, ela te governa.
Eu não eduquei a minha por muito tempo.
Eu obedeci.
Obedeci achando que mandava.
Essa é a piada.
Eu dizia “sou disciplinado”, mas muitas vezes era só medo. Dizia “sou intenso”, mas muitas vezes era só desregulado. Dizia “tenho visão”, mas muitas vezes era delírio.
E o delírio é sedutor.
Ele chega bonito. Chega com plano grande, com promessa de império, com aquela sensação elétrica de que você finalmente entendeu o código secreto da vida. Você se sente escolhido. Especial. Atrasado, mas escolhido. Ferido, mas destinado. Cansado, mas imparável.
Cuidado com essa palavra.
Imparável.
Tudo que é imparável um dia bate em alguma coisa.
Eu bati.
Várias vezes.
Em mim. Nos outros. Em quem me amava. Em quem tentou ficar perto. Em portas que eu mesmo fechei e depois fiquei encarando como se alguém tivesse me trancado por fora.
Não estou orgulhoso.
Também não vou fingir que sou só vítima da minha cabeça. Isso seria confortável demais. Eu fiz escolhas. Fui covarde em algumas. Orgulhoso em outras. Injusto. Ausente. Dramático. Brilhante por cinco minutos e insuportável pelo resto do dia.
Esse também sou eu.
O seu pai.
Não o personagem que talvez eu tente parecer quando o mundo está olhando.
O homem real.
O que erra.
O que promete mudar e às vezes muda por três dias.
O que ama você de um jeito absurdo e mesmo assim ainda precisa aprender a ser digno desse amor na prática.
Porque sentimento, é fácil.
Até os piores homens sentem coisas bonitas.
Difícil é organizar a vida para não transformar quem a gente ama em plateia do nosso caos.
Eu ainda estou aprendendo.
E talvez eu esteja escrevendo isso porque tenho medo de não aprender rápido o bastante.
Tenho medo do meu corpo cansar de mim antes da minha alma ficar pronta.
Tenho medo do meu cérebro cobrar todos esses excessos com juros.
Tenho medo de acordar velho, cheio de histórias, cheio de cicatrizes, cheio de frases bonitas, e perceber que confundi intensidade com vida.
Porque viver não pode ser só incendiar tudo e chamar a fumaça de destino.
Tem que haver alguma coisa além.
Tem que haver manhã.
Tem que haver comida decente.
Tem que haver sono.
Tem que haver colo sem performance.
Tem que haver um domingo em que ninguém precisa provar nada para ninguém.
Eu ainda não sei morar bem nesse tipo de paz.
Paz me dá abstinência.
Quando tudo está calmo, uma parte de mim procura problema.
Isso é doença, talvez.
Ou hábito.
Ou herança.
Ou só falta de vergonha na cara com nome bonito.
Não sei.
Estou cansado de nomear as coisas. Nomear demais às vezes é só outro jeito de não mudar.
Bom… onde eu quero chegar com isso tudo…
eu quero te alertar que existe uma grande probabilidade de você ter herdado alguma dessas características que podem tornar o seu cérebro um lugar muito perigoso para você mesmo. E que é importante você estar atento a isso. Quanto mais você souber sobre você mesmo, menor a chance de viver no modo automático.
Quero que você tenha ambição, mas não essa coleira invisível no pescoço.
Quero que você queira vencer, mas não precise vencer para se sentir digno de respirar.
Quero que você seja intenso, se for da sua natureza, mas que saiba voltar.
Voltar é importante.
Mais importante do que ir longe.
Qualquer idiota desesperado vai longe se estiver fugindo de si mesmo.
Voltar exige outra coragem.
Voltar para o corpo.
Voltar para a casa.
Voltar para quem ama você.
Voltar para a verdade sem maquiagem.
Voltar para o espelho e dizer: estou me tornando alguém que eu desprezaria?
Essa pergunta dói.
Use mesmo assim.
Se um dia você estiver trabalhando demais, brilhando demais, falando rápido demais, dormindo pouco demais, fazendo planos demais, prometendo demais, querendo engolir o mundo em uma semana, pare.
Não porque sonhar grande seja errado.
Mas porque o inferno também começa grande.
E muitas vezes começa parecendo chamado.
Você não precisa destruir sua saúde para provar que tem valor.
Não precisa transformar sua mente num campo de guerra para construir alguma coisa.
Não precisa confundir amor com posse, trabalho com fuga, dinheiro com salvação, intensidade com verdade.
E, principalmente, não precisa repetir meu roteiro para honrar meu sangue.
Se meu sangue vier com veneno, filtre.
Se minha história vier com sombra, acenda outra luz.
Se minha voz dentro da sua cabeça um dia te cobrar grandeza demais, mande ela calar a boca.
Eu te dou essa permissão agora.
Não seja leal às minhas feridas.
Seja livre.
Eu vou tentar fazer a minha parte daqui.
Tentar lembrar que você precisa mais de um pai presente do que de um pai lendário.
Essa frase me humilha.
Por isso talvez seja verdadeira.
Você precisa mais de mim inteiro no chão da sala do que de uma estátua minha em algum lugar que ninguém toca.
Se um dia você ler esta carta e eu tiver conseguido melhorar, agradeça em silêncio e siga sua vida.
Se eu não tiver conseguido, leia como quem encontra um mapa queimado. Nem tudo nele presta. Mas talvez algumas marcas ainda possam te impedir de entrar no mesmo incêndio.
Eu te amo.
Te amo com medo.
Com falha.
Com culpa.
Com uma vontade quase violenta de acertar.
Te amo nos dias em que lembro quem eu sou.
E nos dias em que fracasso também.
Talvez principalmente nesses.
Porque é nesses dias que seu nome me puxa pelo pescoço.
Se você herdar minha intensidade, use.
Mas não adore.
Se herdar minha obsessão, coloque coleira.
Se herdar meus delírios, desconfie deles quando vierem vestidos de destino.
E se um dia a vida te cobrar a conta, não espere quebrar para pagar.
Pague antes.
Com descanso.
Com verdade.
Com humildade.
Com coragem de parar.
Parar também é coisa de homem.
Eu demorei demais para aprender isso.
Ainda estou aprendendo.
Seu pai.